sexta-feira, 18 de setembro de 2020

Virgem na mitologia de Deméter e uma origem simbólica para a neurose

Diário da Astróloga: 18.09.20 |  No mês virginiano cabe irmos mais a fundo nesse arquétipo tão cheio de contradições. E como temos o signo de Virgem no nosso mapa natal ele se manifesta em todos nós de alguma maneira, ainda que nós não percebamos isso claramente. Então se pensarmos que pessoas com aspectos importantes em Virgem podem desenvolver neuroses de uma forma muito mais evidente que outros signos, não nos enganemos, em algum aspecto da sua vida você também pode ser neurótico. Aliás, para Sigmund Freud, o pai da psicanálise, em alguma medida somos todos neuróticos, vítimas de uma angústia interior que se manifesta em nós sob a forma de conflitos inconscientes.
Mas, voltando ao arquétipo, Virgem é classicamente regido por Mercúrio, deus do raciocínio e da comunicação. Em Virgem, Mercúrio se mostra analítico, cartesiano, criterioso, dado a raciocínios complexos e matemáticos. Mas, além de Mercúrio, o signo pode ser explicado também por meio da mitologia de Deméter, a deusa da agricultura, mãe de Perséfone, a deusa da Primavera, mitologia diretamente relacionada ao signo de Virgem. Em Deméter, Virgem não é a mãe canceriana da fase embrionária que nutre e cuida da infância, mas uma outra mãe de outra etapa da vida e da relação com os filhos. 
Segundo a mitologia, Hades ou Plutão, o deus dos infernos, estava em busca de uma noiva. Certo dia, andando pelos jardins de Deméter, avistou Perséfone a pura e a raptou violentamente levando-a para sua casa, o submundo, transformando-a em sua esposa. Numa negociação sem fim, Hades promete libertar Perséfone uma vez por ano, na Primavera, para ver a mãe. Eis um mito dos tempos da "invenção" da agricultura, diria Joseph Campbell, pois ela é em alguma medida a representação de uma semente plantada nas entranhas da terra que nasce uma vez ao ano. No entanto, até que Perséfone, a rainha de Hades fosse liberada pelo marido, a mãe fica completamente perturbada. Desesperada, Deméter recorre a várias instâncias para resgatar a filha, pede ajuda ao Olimpo, e quase morre de tristeza. 

O significado profundo dessa passagem da narrativa é A NECESSIDADE DA MÃE ACEITAR A EMANCIPAÇÃO DA FILHA. Todas as vezes que uma mãe vê seu filho empacotando suas coisas para sair de casa em definitivo, seja moça ou rapaz, a mãe Deméter fica de coração partido. Nesse processo, toda mãe-Deméter precisa passar pela experiência da TOLERÂNCIA e SACRIFÍCIO. Quando a mãe se nega a essa passagem ela está em algum nível, TRAINDO AS LEIS DA NATUREZA. Em Deméter, A MÃE PRECISA RENUNCIAR À UNILATERALIDADE DA VIDA. Ela abandona uma visão individual da existência humana, para viver uma outra vida de perspectivas mais amplas (apesar de duras inicialmente) porém mais altruístas. Eis o por que da psique virginiana ser tão complexa, segundo a literatura. Ela está em algum nível NO LIMIAR DE UMA RUPTURA SIMBÓLICA, o que traz em si grandes ambivalências. 

Na literatura astrológica fala-se de uma perspectiva de mudança de humores, sensibilidade, pessimismo, melancolia, fobia, ideias obsessivas; traços de uma Deméter que "não deixou ir". É a obsessão por ter a "filha" de volta. Uma experiência que toda mãe um dia passará na vida. E que muitos de nós, com aspectos importantes em Virgem poderão viver, não apenas relacionados aos nossos filhos, mas também a outras áreas da vida. Essa narrativa mítica pode ser entendida em vários níveis e de várias maneiras. De modo que o fundo de uma neurose, pode estar na "Deméter" aflita que mora dentro de nós. 

As histórias mitológicas que nos atravessam se manifestam geralmente de forma tão inconsciente que não conseguimos perceber os por quês das nossas atitudes. Essa pode ser uma verdade que se manifesta em todos nós, não importando se somos mulheres, homens, mães, pais, crianças, jovens ou adultos. Conversar com o mito, entrar na história, identificar-se nessa narrativa ou parte dela, pode em alguma medida, nos fazer entender os processos que acontecem dentro de nós. Onde tempos Virgem no mapa, PODEMOS ser uma Deméter angustiada e neurótica.
Aline Maccari Jornalista, Astróloga e Analista Junguiana
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CRÉDITOS:  A ilustração de hoje, com Deméter e Perséfone é de Jennie Tomanek. 
*Referências: Joseph Campbell, Junito Brandão e Roberto Sicuteri. 
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