terça-feira, 12 de novembro de 2013

Entrevista: Karen Armstrong: Religião x fanatismo

Netuno em Peixes e Plutão em Capricórnio: que tal falarmos de religião e política?
Sob um trígono poderoso, envolvendo os signos de água e alguns dos planetas mais poderosos (Júpiter, Saturno e Netuno) nossos dias podem tremer. Imersos em tanta água temos dificuldade de olhar para frente e dizer qual será a cena do próximo capítulo. Em quadratura com Urano e Plutão os dias se tornam ainda mais obscuros. Qual será a próxima direção a tomar? Diante desse cenário a religião pode oferecer conforto, explicação e ordem ao caos que vivemos. Um traço comum com a astrologia. A questão é quando política e fanatismo se misturam às religiões. Como quando por exemplo fundamentalistas islâmicos se suicidam e matam em cidades como Madri e Londres; extremistas cristãos matam médicos que praticam aborto; judeus tomam terras dos palestinos; hindus queimam mesquitas muçulmanas na Índia e budistas atacam muçulmanos em Myanmar. Nesse contexto a religião enquanto doutrina transcendente aparece distante e sombria. Sobre esse assunto a escritora Karen Armstrong, especialista em religião comparada, responde uma série de questões em entrevista ao programa Milênio, da GloboNews, em julho de 2013. 


AM
Não por acaso a buscadora incansável Karen Armstrong é escorpiana do dia 14 de novembro de 1944. A escritora é uma das mais populares e é responsável pela ampliação do debate aberto a cerca das religiões


Repórter: Há um padrão de comportamento social adequado, ou de boas maneiras, nas sociedades educadas, que diz: “Religião não se discute, pois é uma questão íntima demais, particular demais.” Nós deveríamos discutir e conversar sobre religião, como fazemos com qualquer assunto?
Karen Armstrong: Com certeza, devemos falar de religião. Não há por que colocá-la em um gueto peculiar próprio e dizer que é proibido discuti-la publicamente. A ideia de que ela é absolutamente pessoal, particular e interna é uma invenção ocidental do início da Idade Moderna. A ideia de que “religião”, como algo separado de outros aspectos da vida é uma grande inovação e parte do processo de modernização europeu. Até então, não existia uma palavra que definisse a religião dessa maneira. Ela permeava todos os aspectos da vida. Os romanos, por exemplo, não tinham uma parte da vida separada chamada “religião”. Não havia um dia especial para adorar os deuses. Eles não participavam de atividades “especialmente religiosas”, que não fossem políticas, militares ou sociais.

Repórter: Era como todo o resto.
Karen Armstrong: E isso é válido para todas as religiões do mundo. Nenhum outro povo ou cultura tinha um conceito que corresponda à religião da maneira como temos hoje. Assim, “dïn”, por exemplo, a palavra árabe, muitas vezes é traduzida como “religião”, mas, na verdade, significa “seu estilo de vida”. O conjunto de seu estilo de vida: social, político, econômico.

Repórter: Ao mesmo tempo, temos essas interpretações, especialmente vindas de livros religiosos, livros sagrados, que funcionam quase como um ditame para explicar a vida. A senhora leu a bíblia, escreveu sobre ela. As pessoas dizem: “Leia a bíblia, todas as explicações científicas do mundo estão lá.” Ou seja, o mundo foi criado em uma semana, de uma só vez, todas as espécies apareceram, ele existe há cerca de 6 mil anos. Mas a ciência, obviamente, nega isso tudo.
Karen Armstrong: Claro. E, mas uma vez, até o século XVI, ninguém lia o primeiro capítulo da bíblia, o Gênesis, como um relato literal das origens da vida. Santo Agostinho, que pode ser descrito como fundador do cristianismo ocidental, disse que, se um texto das escrituras contraria a ciência, ele deve ser reinterpretado de uma maneira alegórica. Até a Reforma Protestante, no século XVI, as pessoas eram encorajadas a ler a Bíblia uma vez de maneira literal, para ver o que era, e uma segunda vez, identificando o sentido alegórico, dando a ela um sentido místico e um moral, que deveria ser aplicado a vida atual de cada um, trazendo algo novo para aquela situação.

Repórter: Essa interpretação literal dos livros sagrados — a Bíblia, o Alcorão e outros livros sagrados — pode ser muito prejudicial e tem implicações práticas. Vemos fundamentalistas cristãos interpretando literalmente o que a Bíblia diz sobre criacionismo, que a senhora mencionou. Vemos fundamentalistas judeus, que alegam ter direito a todo o território palestino, pois assim disse Deus.
Karen Armstrong: O problema é que, se você analisar esses textos, eles são muito contraditórios e qualquer leitura dos textos sagrados será extremamente seletiva. Eu os vejo como documentos humanos. A Bíblia, por exemplo, não é apenas um texto, é uma biblioteca de textos escritos em mil anos por diferentes escritores. Há nela mensagens totalmente contraditórias. Na Bíblia, há mensagens que dizem que os judeus não devem achar que a Palestina é a terra deles. Então, o que se faz é um exercício altamente seletivo. Eu acho que, se eu fosse budista, chamaria essa interpretação literal de “inábil”. Ela não ajuda e pode ser extremamente danosa, além de não ser guiada pelo princípio da caridade. E eu gostaria de citar Santo Agostinho novamente. Ele dizia que, se um texto religioso contradiz o dever da caridade e parece promover o ódio, mais uma vez, ele deve ser reinterpretado, recebendo uma interpretação alegórica que nos leve em direção à caridade e amor ao próximo.

Repórter:  Isso nos faz pensar no Alcorão, por exemplo. Segundo a interpretação literal do Alcorão, as mulheres são seres inferiores, os homens têm direito de bater nelas. Os fiéis têm direito de matar os infiéis. Os reformistas dizem que ele deveria ser lido no contexto de quando foi revelado, quando a religião estava sendo atacada, e tudo aquilo diz respeito àquela época. E as pessoas o aplicam a hoje.
Karen Armstrong: Mais uma vez, acho que os muçulmanos adotaram o costume ocidental de ler a Bíblia literalmente. Essa literalidade se espalhou, e isso vem, principalmente, da Arábia Saudita. O islã saudita, o islã wahhabista, foram uma resposta a condições particulares da Península Arábica no século XVIII. Em termos cristãos, nós chamaríamos isso de “heresia”. Isso contradiz fundamentalmente os ensinamentos islâmicos e os sauditas acabaram por espalhá-los pelo mundo todo, o que foi um desenvolvimento muito equivocado. O próprio profeta Maomé, na Hadith, se posiciona contrariamente à violência contra a mulher. E, nesse ponto, ele chocou seus contemporâneos, típicos machos alfa que se sentiam no direito de bater nas mulheres.

Repórter: Alguns estudiosos muçulmanos acham que o Islã precisa de uma reforma, de uma renovação. Isso deveria acontecer agora, com a experiência dos muçulmanos que vivem no Ocidente, que têm sido influenciados por outras coisas. Qual é a sua opinião?
Karen Armstrong: Que Deus não permita que a reforma deles seja como foi a nossa! Foi um período terrível. Cerca de 8 mil pessoas foram mortas. Foi parte da modernização da Europa e não desejo aquilo a ninguém. A última coisa de que precisamos é um Martinho Lutero do islã, em minha opinião. Ele era um homem cheio de conflitos, com algumas ideias muito radicais sobre as mulheres, os judeus etc. Mas o islã tem vivido uma reforma contínua ao longo de sua história. Quando as pessoas negam isso, eu me sinto constrangida, pois mostra uma grande ignorância a respeito da história do islã, que tem se reinventado de maneira contínua. Mas eu diria que esse processo estava em curso antes do 11 de setembro. Eu participo frequentemente de debates com muçulmanos, e sempre precisamos explicar sobre as mulheres, a jihad etc. para pessoas que não sabem do que estão falando. Por isso, eles continuam a agir de maneira defensiva. E eu acho que esse tipo de ataque impede o progresso de desenvolvimento que estava acontecendo. E há muitas teorias interessantes no mundo islâmico hoje, mas elas não chegam às mídias dominantes.

Repórter: A senhora mencionou dois exemplos em momentos diferentes da história: a violência instaurada com a Reforma na Europa e os atentados do 11 de setembro. Dois exemplos de violência ligada à religião. As pessoas poderiam dar outros exemplos semelhantes. Nós temos visto os budistas atacarem os muçulmanos em Myanmar. Hindus atacando muçulmanos e sikhs. Isso leva muitas pessoas a dizerem que a religião é um fator de maldades, um instrumento de violência, e que ela é danosa à sociedade. É um assunto em voga.
Karen Armstrong: Eu estou escrevendo um livro sobre isso e talvez possamos falar disso daqui a alguns anos. Mas eu diria que o mal está em nós. Cada um de nós é capaz de fazer o mal, de cometer violência e crueldade. Se eu não tivesse uma vida tão privilegiada, eu não sei. Eu acho que poderia facilmente ser terrorista. Eu odeio pensar no que eu poderia ter sido como mulher se não tivesse tido a oportunidade de estudar. Eu acho que eu nutriria muito ódio e ressentimento. E eu acho que o laicismo, na história recente, não tem sido exatamente pacífico. Na época do Holocausto, havia um campo de concentração na Alemanha ao lado de um centro de iluminismo racional, no mesmo bairro de uma grande universidade. As lutas religiosas, normalmente, são lutas nacionais. Se você ouvir Osama bin Laden falando sobre por que realizou aqueles atentados terríveis no dia 11 de setembro, ele disse: “Porque vocês prejudicavam nossa religião.” Mas ele também tinha motivos políticos. “Vocês interferem na política do Oriente Médio.” E aí ele se refere a Israel e a Palestina.

Repórter: O lado político, que acaba sendo esquecido.
Karen Armstrong: A religião e a política se misturam. O mesmo ocorre com o Hamas. As pessoas sempre falam sobre como eles são religiosos, mas, na verdade, eles não promovem o islamismo na Faixa de Gaza. E um movimento altamente nacionalista, e, se nos concentrarmos apenas na religião ao discutir essa questão, negligenciando a questão política, não estaremos analisando o panorama completo, e isso é muito perigoso.

Repórter: A religião prega esse conceito de que se está desagradando a Deus.
Karen Armstrong: Mais uma vez, isso é uma declaração vazia, porque nem todas as religiões acreditam em Deus. Esse é um conceito monoteísta judaico-cristão. E eu concordo, porque, durante anos, eu odiei Deus. Deus me parecia uma espécie de Grande Irmão que vivia espionando o que eu fazia, que nunca estava satisfeito com nada do que eu realizasse. Mas, obviamente, essa é uma concepção de Deus muito infantil. Eu diria que o Deus bíblico é um kit para iniciantes. Você o recebe e ouve falar de Deus pela primeira vez, ainda criança, no mesmo momento em que falam do Papai Noel. Ao longo dos anos, nossa visão do Papai Noel muda, amadurece e se desenvolve. Mas, no clima atual, a concepção de Deus continua nesse estado não desenvolvido e infantil. Pessoas como São Tomás de Aquino, Maimônides ou Ibn Sina, na tradição muçulmana, ficariam horrorizados com a maneira como os clérigos falam de Deus. Essa personalidade bíblica do Deus Grande Irmão é uma espécie de maneira humana de começar a pensar em Deus, mas é um símbolo. Todas as linguagens religiosas devem observar através do símbolo para ver a realidade indescritível que está além dele, usando vários tipos de meditação ou rituais para fazer isso. É algo transcendental. E transcender significa ir até onde as palavras e pensamentos podem ir.

Repórter: A senhora falou de sua experiência na igreja Católica. Certamente, conhece a igreja por dentro, ou pelo menos um aspecto dela. Foi escolhido um novo papa, o primeiro oriundo da América Latina, o que é ótimo. Mas, como nós também sabemos, a Igreja perdeu muito espaço. A senhora acha que é possível recuperar terreno ou já está tarde demais?
Karen Armstrong:  Eu gostaria que o novo papa saísse à sacada de São Pedro e dissesse duas coisas. Primeiro: “Desculpe. Nós fizemos muita coisa errada.” Os casos de pedofilia, por exemplo. “Nós lamentamos muito. Estamos arrependidos e vamos tentar reparar esse erro, desculpem.” Isso em vez de andar pisando em ovos, tentando acobertar e salvar a instituição. A segunda coisa que eu gostaria que esse papa fizesse — estou muito interessada nele e gosto de saber que ele mora em um apartamento de dois quartos e deixou aquela coisa toda de palácio para trás — é aparecer naquela sacada e dizer: “Eu vou voltar para a América Latina.”

Repórter: A igreja passou por um grande período de reformas nos anos 1960, com o Concílio Vaticano II. Acha que está na hora de um Concílio Vaticano III?
Karen Armstrong: Seria ótimo, mas me pergunto quem participaria dele. Porque havia vários bispos progressistas na época de João XXIII. Agora, a Assembleia de Cardeais e Bispos tem sido muito conservadora, foram todos escolhidos a dedo. Os párias da igreja tendem a ser os liberais. Nos EUA, há católicos que me dizem que, depois dos escândalos de pedofilia, nunca mais confiariam no clero da mesma maneira. E como poderiam? Isso é uma base fundamental de uma confiança sagrada. Agora é hora de os fiéis darem um passo à frente e dizerem: “Esta também é a nossa igreja.” Eu tenho uma fantasia. Se Jesus voltasse à Terra, eu adoraria mostrar o Vaticano a ele e deixá-lo ver o que acha daquilo.

Repórter: Como no templo.
Karen Armstrong: Exato. Expulsar os mercadores do templo não seria nada perto do que ele faria. O Vaticano não representa o que Jesus pregava nem o que São Paulo pregava.

Repórter: Suas crenças religiosas se tornaram uma crença na vida após a morte, em um ser superior?
Karen Armstrong: Não. Crença é uma dessas palavras que mudaram de significado. A palavra inglesa para crença significava “lealdade”, “compromisso”. Ela é a tradução da palavra grega “pistis”. No Novo Testamento, Jesus pergunta: “Você tem pistis?” E isso não significa acreditar em algumas doutrinas, significa “compromisso”. Jesus não pediu que as pessoas acreditassem que ele era a segunda pessoa da Santíssima Trindade, uma ideia que eu acho que o deixaria perplexo. Ele perguntou se as pessoas estavam preparadas para dar o que tinham aos pobres, para viver apenas com o básico, como ele, para viver como as aves do céu e os lírios dos campos, confiando em Deus, o Pai, e para trabalhar dia e noite para a construção de um reino em que ricos e pobres se sentariam juntos. Foi apenas no século XVII que a palavra “crença” mudou de significado, sendo usada primeiramente por cientistas e filósofos para denominar a aceitação intelectual de uma proposição duvidosa. Na época da Reforma, quando todos estavam discutindo a transubstanciação, a morte dessas “crenças”, a palavra ganhou um significado que não tinha em outras tradições. O budismo não tem crenças, trata-se apenas de práticas. O judaísmo não tem crenças e o alcorão é extremamente duro com relação à teologia, à ortodoxia teológica, que ele chama de zanna, suposições autoindulgentes sobre questões das quais ninguém pode ter certeza, mas que tornam as pessoas irritadiças e burramente sectárias. O conhecimento religioso é um forma de conhecimento prático. É como nadar ou dirigir. Você tem que entrar no carro e aprender. Não se aprende a dirigir apenas lendo o manual do carro. Você precisa entrar e aprender a fazê-lo. Todas essas “doutrinas”, originalmente, tinham um aspecto prático. Ou um ritual ou uma prática ética. Se você não seguisse o ritual, não o entenderia. É como nadar ou dançar. É uma forma prática de conhecimento.

Repórter: Isso nos leva ao que a senhora tem promovido recentemente, o que acham de “vida de compaixão”, seguindo uma regra de ouro. Fale sobre esse conceitos.
Karen Armstrong: Bem, em 2008, eu ganhei um prêmio da TED, que promove as TED Talks e a TED Conferences. Eles dão às pessoas que eles acham que contribuem para um mundo melhor, mas que poderiam ter um impacto maior com a ajuda deles, um prêmio que significa o desejo de um mundo melhor. Eu estava farta de ouvir líderes do clero se reunindo e falando sobre a homossexualidade ou dando ênfase a alguma doutrina em particular, quando a religião deveria dar uma contribuição maior a uma das maiores tarefas da nossa época, que é construir uma comunidade global, na qual pessoas de todas as ideologias e etnias possam viver juntas em harmonia. Se não conseguirmos isso, não teremos um mundo viável para a próxima geração. Mas a religião tem sido vista como parte do problema, por razões óbvias.

Repórter: E eles não têm compaixão.
Karen Armstrong: Todas essas fés desenvolveram sua própria versão da “regra de ouro”, que é nunca tratar os outros como você não gostaria de ser tratado. E esse é o teste de fé. Não é uma doutrina, uma crença ou uma ética sexual específica. O que se deve fazer é tratar o outro assim, e essa é uma questão urgente. Se nós, britânicos, tivéssemos tratados os povos de nossas colônias de acordo com a regra de ouro, com maior respeito, não teríamos os problemas políticos que temos hoje.

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