segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

As origens


A semana começa com Lua em Câncer e o passado vem à tona. Quando o 
caranguejo aparece é dia olhar para trás, pedir e agradecer aos nossos legados 
psíquico, afetivo e cultural. Afinal só segue em frente quem sabe
de onde vêm. Reprodução do texto  do Dr. Carlos Byington, Psiquiatra e 
Analista Junguiano na obra Mitologia Grega de Junito de Souza Brandão. 
Na foto detalhe da escultura de Ares ou Marte.
"Através do conceito de arquétipo, C.G.Jung abriu para a Psicologia a possibilidade de perceber nos mitos diferentes caminhos simbólicos para a formação da Consciência Coletiva. Nesse sentido, todos os símbolos existem numa cultura e atuante nas suas instituições são marcos do grande caminho da humanidade das trevas para a luz, do inconsciente para o consciente. Estes símbolos são as crenças, os costumes, as leis, as obras de arte, o caminho científico, os esportes, as festas, todas as atividades, enfim, que forma a identidade cultura. Dentre estes símbolos, os mitos têm lugar de destaque devido á profundidade e abrangência com que funcionam no grande e difícil processo de formação da Consciência Coletiva.  Os pais ensinam aos filhos como é a vida, relatando-lhes as experiências pelas quais passaram. Os mitos fazem a mesma coisa num sentido muito mais amplo, pois delineiam padrões para a caminhada existencial através da dimensão imaginária.
Com o recurso da imagem e da fantasia, os mitos abrem para a Consciência o acesso direto ao Inconsciente Coletivo. Até mesmo os mitos hediondos e cruéis são da maior utilidade, pois nos ensinam através da tragédia os grandes perigos do processo existencial.
Vênus nos braços de Marte
Todavia, os arquétipos são anda mais do que a matriz que forma os símbolos para estruturar a Consciência. eles são também a fonte que os alimenta. Por isso, os mitos, além de gerarem padrões de comportamento humano, para vivermos criativamente, permanecem através da história como marcos referenciais através dos quais a Consciência pode voltar às suas raízes para se revigorar. A obra de Jung demonstrou fartamente que o Inconsciente não é somente a origem da Consciência, mas, também, a sua fonte permanente de reabastecimento. Da mesma forma que a noite permite ás plantas prepararem-se para cada novo dia e o sono descansa e reabastece o corpo, assim, também, o Inconsciente renova a Consciência. Das trevas fez-se a luz, que através delas, se mantém. De noite, por meio dos sonhos; de dia, através da fantasia, os arquétipos produzem e revigoram os símbolos. A interação do consciente com o Inconsciente Coletivo, através dos símbolos, forma, então, um relacionamento dinâmico, extraordinariamente criativo, cujo todo podemos denominar de Self Cultural. Os mitos são, por isso, os depositórios de símbolos tradicionais no funcionamento do Self Cultural, cujo principal produto é a formação e manutenção da identidade de um povo. A grande utilidade dos mitos, por conseguinte, está não só nos ensinamentos dos caminhos que percorrem a Consciência Coletiva de uma determinada cultura durante sua formação, mas também na delineação do mapa do tesouro cultura através do qual a Consciência Coletiva pode, a qualquer momento, voltar para realimentar-se e continuar se expandindo."
Marte e Vênus
"Existe ainda algo extraordinário no estudo da Mitologia Grega, para o que gostaria de motivar a atenção do leitor. Trata-se de compreender a razão pela qual a Cultura Ocidental se voltou tão intensamente para a Grécia durante o Renascimento, o que muitos têm compreendido como um retrocesso ao paganismo e um consequente desvirtuamento do cristianismo. No entretanto, lado a lado com a intolerância da Inquisição e sua obra repressiva das variáveis míticas (heresias), percebemos, no Renascimento, a Consciência da fé cristã, não só como os símbolos da religião greco-romana e egípcia, como com toda a sorte de crenças, superstições e magia. Foi nesta convivência entre religião, alquimia, astrologia e superstição que nasceu o humanismo europeu, útero e berço da ciência moderna. Não vejo nisso um retrocesso ao cristianismo, e sim um avanço. A árvore mítica judaico-cristã foi buscar em outras culturas o material imaginário necessário para implantar a transição patriarcal do Self Cultural e encontrou, na Mitologia Grega, uma fonte inesgotável de símbolos de convivência com as forças da natureza. o Ocidente reencontrou na Grécia não só uma cornucópia de mitos matriarcais, como também inúmeros padrões mitológicos de convivência destes símbolos matriarcais com patriarcais. Estes ingredientes foram indispensáveis para os gênios do Renascimento constituírem a ciência moderna, a partir da busca da espiritualidade judaico-cristã, aplicada às forças da natureza. Este mesmo fator pode nos ajudar criativamente na interação entre, por um lado, nossas raízes judaico-cristãs e a cultura japonesa de dominância patriarca, e por outro lado, as culturas indígenas e negras de dominância matriarcal na busca da construção da identidade brasileira, a partir de nossa sociedade multicultural."
Dr. Carlos Byington
Psiquiatra e Analista Junguiano
Prefácio da obra Mitologia Grega de Junito de Souza Brandão

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