terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Quando precisamos ir ainda mais fundo

No céu dos próximos dias Mercúrio em Peixes em conjunção com Netuno nos contamina com decisões inconscientes, confusas, destinos mitológicos, trágicos, como o final de um filme (Eduardo Coutinho e Philip Seymour Hoffman). Em meio a uma grande quadratura e aspectos nebulosos, olhar para dentro ou para a profundidade dos mitos pode nos ajudar mais a entender melhor o que se passa. Pintura: Netuno e Amphitrite, de Jacob Gheinll (1565 -1629)
Será que perguntaríamos tanto sobre para onde vamos se soubéssemos de onde partimos? O céu não é de brigadeiro. O fogo cruzado permanecerá ainda por muito tempo e dentro de cada um nós a sensação poderá não ser diferente. Todas as vezes que algum planeta toca a cruz da sagrada quadratura, fiéis e infiéis pagam seus pecados aqui na Terra. Ontem e hoje os dias são de Lua em Áries e o nervosismo ronda quem não consegue obter respostas para questões fundamentais para manutenção ou mudança de rumo. Cronometrar o céu, esmiuçar cada grau percorrido por um planeta como quem se encanta pela corrida de uma tartaruga, pode gerar uma aflição e um desespero que às vezes alcança até a mim mesma, contadora de histórias e dias. 

Na foto o cineasta Eduardo Coutinho e Philip Seymour Hoffman. 
Apesar da Lua em Áries deixar a ira à mostra, Mercúrio em Peixes em conjunção com Netuno, completa o cenário de pasmaceira avisando que toda e qualquer decisão acabou de entrar em modo de hibernação. Desde que essa formação foi vista no céu, o cinema, regido por Netuno e Peixes, nos enviou notícias de perdas irreparáveis e de modos inacreditáveis, mergulhados em episódios de loucura e inconsciência, típicos do deus dos mares. Sob o mesmo céu nos despedimos de Philip Seymour Hoffman e Eduardo Coutinho. Em nossas vidas o movimento retrógrado de Mercúrio vai até quinta-feira da próxima semana, dia 13 de fevereiro, quando o planeta ingressa novamente no signo de Aquário, a sensatez. Talvez então, depois de tanta reflexão e renegociação, consigamos ter alguma definição mais clara sobre as coisas. Até lá com ira ou sem ira estaremos caminhando pela névoa densa. Enquanto não enxergamos um palmo à frente do nariz o melhor talvez seja olhar para dentro, pedindo ajuda à intuição. Nessas horas costumo encontrar respostas nos livros. Não adianta! A intuição aquariana estará sempre depois de algum prefácio. Para refrescar a minha memória e dividir com vocês alguns encantamentos reproduzo na íntegra o texto do psiquiatra e analista junguiano, Dr. Carlos Byington, na obra de Junito Souza Brandão, Mitologia Grega. Quando não encontramos respostas nos céus precisamos ir mais a fundo nos mitos. E ir nessa direção é sem dúvida voltar se para o nosso mais profundo íntimo.
Aline Maccari

"Através do conceito de arquétipo, C.G.Jung abriu para a Psicologia a possibilidade de perceber nos mitos diferentes caminhos simbólicos para a formação da Consciência Coletiva. Nesse sentido, todos os símbolos existem numa cultura e atuante nas suas instituições são marcos do grande caminho da humanidade das trevas para a luz, do inconsciente para o consciente. Estes símbolos são as crenças, os costumes, as leis, as obras de arte, o caminho científico, os esportes, as festas, todas as atividades, enfim, que forma a identidade cultura. Dentre estes símbolos, os mitos têm lugar de destaque devido á profundidade e abrangência com que funcionam no grande e difícil processo de formação da Consciência Coletiva. 
Os pais ensinam aos filhos como é a vida, relatando-lhes as experiências pelas quais passaram. Os mitos fazem a mesma coisa num sentido muito mais amplo, pois delineiam padrões para a caminhada existencial através da dimensão imaginária. Com o recurso da imagem e da fantasia, os mitos abrem para a Consciência o acesso direto ao Inconsciente Coletivo. Até mesmo os mitos hediondos e cruéis são da maior utilidade, pois nos ensinam através da tragédia os grandes perigos do processo existencial.

Todavia, os arquétipos são anda mais do que a matriz que forma os símbolos para estruturar a Consciência. eles são também a fonte que os alimenta. Por isso, os mitos, além de gerarem padrões de comportamento humano, para vivermos criativamente, permanecem através da história como marcos referenciais através dos quais a Consciência pode voltar às suas raízes para se revigorar. A obra de Jung demonstrou fartamente que o Inconsciente não é somente a origem da Consciência, mas, também, a sua fonte permanente de reabastecimento. Da mesma forma que a noite permite ás plantas prepararem-se para cada novo dia e o sono descansa e reabastece o corpo, assim, também, o Inconsciente renova a Consciência. Das trevas fez-se a luz, que através delas, se mantém. De noite, por meio dos sonhos; de dia, através da fantasia, os arquétipos produzem e revigoram os símbolos. A interação do consciente com o Inconsciente Coletivo, através dos símbolos, forma, então, um relacionamento dinâmico, extraordinariamente criativo, cujo todo podemos denominar de Self Cultural. Os mitos são, por isso, os depositórios de símbolos tradicionais no funcionamento do Self Cultural, cujo principal produto é a formação e manutenção da identidade de um povo.
A grande utilidade dos mitos, por conseguinte, está não só nos ensinamentos dos caminhos que percorrem a Consciência Coletiva de uma determinada cultura durante sua formação, mas também na delineação do mapa do tesouro cultura através do qual a Consciência Coletiva pode, a qualquer momento, voltar para realimentar-se e continuar se expandindo."

"Existe ainda algo extraordinário no estudo da Mitologia Grega, para o que gostaria de motivar a atenção do leitor. Trata-se de compreender a razão pela qual a Cultura Ocidental se voltou tão intensamente para a Grécia durante o Renascimento, o que muitos têm compreendido como um retrocesso ao paganismo e um consequente desvirtuamento do cristianismo. No entretanto, lado a lado com a intolerância da Inquisição e sua obra repressiva das variáveis míticas (heresias), percebemos, no Renascimento, a Consciência da fé cristã, não só como os símbolos da religião greco-romana e egípcia, como com toda a sorte de crenças, superstições e magia. Foi nesta convivência entre religião, alquimia, astrologia e superstição que nasceu o humanismo europeu, útero e berço da ciência moderna. Não vejo nisso um retrocesso ao cristianismo, e sim um avanço. A árvore mítica judaico-cristã foi buscar em outras culturas o material imaginário necessário para implantar a transição patriarcal do Self Cultural e encontrou, na Mitologia Grega, uma fonte inesgotável de símbolos de convivência com as forças da natureza. o Ocidente reencontrou na Grécia não só uma cornucópia de mitos matriarcais, como também inúmeros padrões mitológicos de convivência destes símbolos matriarcais com patriarcais. Estes ingredientes foram indispensáveis para os gênios do Renascimento constituírem a ciência moderna, a partir da busca da espiritualidade judaico-cristã, aplicada às forças da natureza. Este mesmo fator pode nos ajudar criativamente na interação entre, por um lado, nossas raízes judaico-cristãs e a cultura japonesa de dominância patriarca, e por outro lado, as culturas indígenas e negras de dominância matriarcal na busca da construção da identidade brasileira, a partir de nossa sociedade multicultural."
Dr. Carlos Byington
Psiquiatra e Analista Junguiano
Prefácio da obra Mitologia Grega de Junito de Souza Brandão

 *Os posts são publicados diariamente no site da Astróloga e no Facebook. Se você gostou compartilhe sem se esquecer de preservar fotos e vídeos propositalmente relacionados ao conteúdo, além de citar a fonte: A Astróloga.com.br

Nenhum comentário :

Postar um comentário