terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Histórias netunianas: Bruno filho de Bacco

Bruno é meu amigo há muitos anos. É uma pessoa séria, inteligente, dedicada e tem um emprego burocrático. De dia ele é uma pessoa normal como qualquer outra. Mas todas as vezes que saímos para nos divertir e dançar, com o grupo de amigos, o comportamento antagônico dele saltava não só aos meus olhos. A noite de Bruno começava timidamente e logo na primeira hora ele apresentava sinais discretos que só alguém muito atento ao estudo do comportamento poderia perceber. Depois de duas horas já não seria mérito somente meu, mas todos poderiam notar sua radical transformação. Eu já observava isso há algum tempo e tentava perceber onde morava o sutil ponto de mutação. E descobri que esse despertar se dava no primeiro gole de vinho. Quando fiz o estudo de seu mapa astral tudo se encaixou como uma luva. Bruno tem o planeta Netuno em conjunção com seu Ascendente, ou seja, a primeira casa do mapa, responsável pelo desenvolvimento dos traços de personalidade mais visíveis física e socialmenteA mitologia de Netuno já é um tanto conhecida de quem passeia pelas páginas de A Astróloga

Ele empresta ao sujeito características de sua inconsciência profunda, a doRei dos Mares, sendo encantador, idealista, musical, performático e dançarino. Mas poucos conhecem outra história que também faz parte do "arquétipo netuniano". É a história de Dioniso. No mundo confuso da mitologia, Perséfone (Rainha dos Submundos ao lado do marido Hades, Deus dos Infernos) era mãe de Dioniso. Já nos mistérios de Elêusis (ritos de iniciação e culto a terra) o rapaz era filho de Deméter, mãe de Perséfone. Independentemente de Dioniso ser filho ou neto da Deusa da Agricultura sua origem remete às profundezas da terra, do inconsciente ou da carne. Numa terceira hipótese Dioniso seria filho de Sêmele, amante de Zeus. Revoltada com a traição, Era, esposa do Deus do Olimpo, arma uma arapuca para a moça. E o bebê acaba de crescer costurado nas entranhas da coxa do pai para vir ao mundo no tempo certo. 

Ainda muito pequeno é entregue às Ninfas para que acabem de criá-lo. E na intenção de protegerem a criança da ira de Era vestem-no com roupas de mulher, desenvolvendo nele características comportamentais andróginas e a capacidade de entender como ninguém o universo feminino. Quando chega à juventude Dioniso, também conhecido como Bacco, faz jus a sua herança familiar e abençoa a fruta da uva e, portanto o vinho. Solto pelo mundo ao lado das Mênades (moças seguidoras do ritual que dançavam, bebiam e se ofereciam sexualmente), ele promoveu festas e bacanais, na intenção de disseminar o êxtase, característico do estado alterado de consciênciaAssim, da mesma forma Bruno que ama as mulheres, a mãe e as irmãs, é doce e feminino, baila embriagado, rodeado de tietes insinuantes, disseminando uma alegria contagiante, sem pudor e inconsequente. Perto dele qualquer festinha parece uma orgia. 

Não é à toa que depois da primeira taça é ele quem recebe todas as atenções, entre homens e mulheres. Bruno é um caso típico de "possessão arquetípica", encarnando Bacco em terra e em tempo presente. O álcool ou qualquer outra droga pode levar esse tipo a um estado tão inconsciente que o contato deixa de ser com a própria razão e quem passa a guiá-lo é uma antiga história mitológica que mora no porão de sua mente, num lugar chamado inconsciente coletivo. Deste mesmo lugar brotam na noite outros tantos Baccosnas ruas e raves, bares e boites de qualquer lugar do mundo. Bruno que vive rodeado de fãs ainda reclama de solidão. E de manhã volta ao trabalho como se nada tivesse acontecido. No dia em que achar uma Mênade encarnada, porém consciente, talvez finalmente encontre sua outra metade.
Aline Maccari

Clique para assistir David Guetta, Akon, Bruno, Bacco e as Mênades celebrando o extasie.
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