quarta-feira, 29 de abril de 2015

E aí? Tem alguém te escutando?

Conteúdo extraído integralmente de: http://www.updateordie.com/2015/04/29/e-ai-tem-alguem-te-escutando/.
Uma reflexão sobre mídia, redes sociais, monólogos, solidão, super exposição e dessensibilização. 




Acompanhei seis apresentações nos dois dias do Festival Path. Em três destes painéis (isto tem acento?), um assunto foi recorrente: estamos participando de monólogos. Muitas vezes, falando sozinhos. Quem levantou a bola foi a ótima Ana Holanda, editora-chefe da (eficiente) revista Vida Simples, no painel“Escrita afetuosa e registros em primeira pessoa”. A missão dela no Path era explicar como podemos espalhar ideias, informar e ajudar a refletir (no caso dela, tendo uma revista…no nosso, apenas escutando). Além de manter a revista só com assinantes, sem publicidade, o que é praticamente impossível no mundo editorial de hoje, Ana mostrou a receita do sucesso da publicação: escutar os seus leitores. “Compreender o outro não é prerrogativa do jornalismo. É prerrogativa da vida. Precisamos entender o que os outros estão sentindo”, lembrou.

E é uma grande verdade. Nas redes sociais, em casa, no trabalho, nos bares, estamos sempre mais preparados para falar alguma coisa do que escutar o que o próximo está dizendo. Quando nos contam algo, logo queremos mudar de assunto – se o assunto for chato, se não nos interessar, se não pudermos acrescentar nada. Na maioria das vezes, muitas pessoas acreditam que “estão perdendo seu tempo” ao escutar histórias (sejam elas tristes, bacanas, heroicas, do dia-a-dia).
“Para escrever melhor, nosso melhor exercício é olhar para o próximo. Exercitar a humanidade”, disse Ana. “Estamos vendo uma geração de crianças que foram criadas como pequenos reizinhos, totalmente desconectados dos outros”, afirmou em alto e bom som. Será?
No dia seguinte, ao participar do painel do Update or Die, “Fala a verdade: não tem hora que o mundinho online enche o seu saco?” (e que a nobre Amanda Felício já escreveu sobre aqui), percebi que esta talvez seja uma das maiores reclamações desse “mundinho online”. Às vezes falamos nas redes sociais apenas por falar. Muitas vezes, nem escutamos os outros. E, outras vezes, falamos apenas para mostrar que temos razão. NaTPM deste mês, Diana Assennato e Natasha Madov (do blog Ada.vc), falam exatamente sobre isso. “É tanta gente tomando seu espaço para dar pitaco nesse palanque virtual que fica difícil não escorregar e dar nosso pitaquinho também”, comentam.
Mas será que estamos realmente escutando o que os outros têm a dizer? Estamos sendo honestos com nossas esposas, maridos, filhos, amigos de trabalho, amigos de bar, amigos, chefes, subordinados, porteiros, taxistas?
E é aí que a “porca torce o rabo”, diria minha tia Maria, do alto dos seus 90 e tantos anos. No painel“Humanóides ou inumanos, como os robots estão se integrando ao nosso cotidiano?” isto veio ainda mais à tona. Luiz Algarra, da Golem Company, que é “designer de fluxos de conversação para grupos humanos”, nos deu exemplos do que tentei explicar até agora. Algarra mostrou sistemas robóticos que estão sempre disponíveis a ajudar seres humanos, principalmente com crianças portadoras de necessidades especiais e idosos. “Eles têm o tempo todo para dialogar, ao contrário dos humanos”, afirmou categoricamente. Aquilo me assustou e me deixou ainda mais preocupado com as perguntas que não querem calar: e aí? Tem alguém te escutando? E você? Está me ouvindo?
Para terminar, apresento para quem ainda não conhece a Bina48 (Breakthrough Intelligence via Neural Architecture, 48 exaflops processing speed and 48 exabytes of memory) em entrevista para o NY Times. Em poucos anos, ela é que estará à disposição para nos escutar. Lembram do filme Her, de Spike Jonze? É isso.
Fonte: http://www.updateordie.com/2015/04/29/e-ai-tem-alguem-te-escutando/

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