segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

A mitologia de Star Wars

Assista à entrevista completa de George Lucas com o jornalista Bill Moyers sobre a mitologia de Star Wars em inglês ou acompanhe os melhores momentos nesta postagem.

Não é por acaso que Star Wars é um fenômeno cinematográfico há quase quatro décadas. Alguns psicólogos e religiosos insistirão em atribuir ao filme qualidades que fariam dele uma obra repleta de significados sagrados, ocultos, que passariam desapercebidos público até levá-los praticamente à redenção, como se a história fosse uma recontextualização da narrativa da mitologia crista em temos modernos. Em entrevista ao jornalista Bill Moyers, George Lucas não vai tão longe, fala de seu filme com muito mais leveza.
A entrevista se dá exatamente 12 anos após a grande entrevista feita com o maior professor de mitologia de todos os tempos, Joseph Campbell, que gerou o documentário O Poder do Mito. O que poucos sabem é que George Lucas foi um dos alunos mais brilhantes de Campbell, transferindo para a sétima arte grande parte do que aprendeu com o mestre. Abaixo seguem reprodução de alguns dos melhores momentos da entrevista que está disponível integralmente nesta postagem.


O que Bill Moyers quer saber é como o filme se transformou num dos maiores sucessos cinematográficos de todos os tempos. Em sua primeira pergunta ele quer saber se George Lucas teria "regenerado" mitos antigos, como diria Campbell, na intenção de reviver ou criar um novo mito. Lucas afirma que suas decisões sobre a trama da história foram totalmente conscientes, durante todo o tempo e que planejou sim recriar o mito em seu sentido clássico. Afinal, todos têm o mal dentro de si e a grande aventura da vida é encontrar o equilíbrio perfeito entre essas duas forças. O destino é algo que existe de fato, mas há também a liberdade de decidirmos a melhor forma de vivê-lo. O que é possível se soubermos ouvir nossa voz interior e entender a melhor forma de contribuir para a sociedade.

Moyers admite que há muita ambiguidade no filme. Lucas afirma que sim e que usou muitas formas de salientar esteticamente o épico duelo entre as forças. Na relação entre o bem e o mal ele o usou uma paleta de cores muito característica. O mal varia entre o preto e o branco, com algumas variações de cinza e poucos personagens em dramáticos tons de vermelho. Sobre os demais figurinos ele disse que se apoio em influências culturais da Ásia, Oriente Médio e Oceania, por que não queria criar algo que não tivesse relação com o que a humanidade de fato havia vivido. Por mais que fosse uma aventura fantástica, a referência era o real. 

Lucas afirma que tanto Dart Vader quanto Dart Maul, concorrentes em perversidades, têm características de diversas culturas e chifres, como é comum a representação dos demônios em várias tradições. E que o efeito mecanizado, desumanizante de Vader justifica esteticamente sua frieza. Onde eles não são de alguma forma diferente demais de nós. A ideia teria sido concebê-los para que nos identificássemos com o mal que existe dentro de cada um de nós.

Sobre o grande sucesso do vilão Dart Vader entre as crianças, Lucas afirma que no fundo elas sabem que são frágeis, impotentes, dependentes dos adultos. E que é exatamente por isso que elas se sentem tão atraídas por um personagem tão poderoso.
Na história do jovem Dart Vader, Lucas quis nos mostrar o quanto é incrível que em nós haja a capacidade para o desenvolvimento de uma personalidade tanto positiva, quanto negativa, sombria ou não. Para ele é fundamental conhecermos o nosso dark side, nosso lado obscuro. Num trecho do filme, Luke pergunta ao Mestre Yoda se a sombra é o lado mais forte. Yoda afirma que não, mas que com certeza é o lado mais sedutor, e que com calma ele saberá distinguir o bem do mal no futuro.

Moyers pergunta se o filme não seria uma obra religiosa. Lucas afirma que a obra não é profundamente religiosa, mas aborda os temas universalmente tratados em algumas das maiores religiões do mundo, como a luta entre o bem e o mal, o mal dentro de si, o deus dentro de si e o grande mistério. E diz que é a Fé a "cola" que une a sociedade, se pensarmos em algo maior. E é ela que está em jogo durante o treinamento de Luke. Yoda mostra isso na frase: "Não somos apenas feitos de carne e ossos. Somos feitos de energia. E é à partir desse momento que sentimos a força."

A força seria Deus, pergunta Moyers? Lucas diz que colocou a força no filme para abrir os olhos dos jovens. Muitos podemos não saber quem é Deus, mas todos nós já tivemos alguma experiências com a força. Com essa resposta Moyers insiste em saber se o filme é uma experiência religiosa. Lucas explica que quando o filme foi lançado muitas religiões se utilizaram da obra para acessar seu público mais jovem. Ou seja, o filme coube em todas elas. Para Lucas o filme foi uma ferramenta que ajudou as religiões a se reaproximarem dos jovens.

Moyers pergunta se há referências ao budismo na obra, como o reconhecimento da existência de uma criança especial, o uso da força interior ou a intuição. Lucas diz que a história poderia ser como as tentações por que passaram os grandes heróis, como Buda ou Jesus. Mas, mais do que isso é uma história de sobrevivência, assistência mútua e coletiva. Afinal, todo a galáxia está interligada e a sobrevivência de um depende da sobrevivência do outro. E que a escolha de ser ou não herói é diária. Podemos tratar bem os outros, sentir compaixão, tratá-los com dignidade ou não. Tornar-se herói envolve ser útil para a sua sociedade, além de ser útil para si mesmo apenas.

Como com Saturno que destrona o pai Urano na mitologia grega, Luke é convidado a destronar o pai. Moyers quer saber sobre esse trecho específico do filme. Lucas afirma que a coisa central na obra é como redimir Vader, uma vez uma criança bondosa que tomou decisões equivocadas optando pela sombra. Na cena do grande duelo, Luke surpreende, baixa arma e não se rende à própria sombra, que seria a sombra do próprio pai. 

Nos últimos minutos da entrevista Lucas, assim como Campbell sugere que o sucesso tem uma estreita relação com a bem aventurança, com a importante decisão de seguirmos aquilo que muito intimamente nos dá prazer, senso de propósito e alegria de viver.

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