segunda-feira, 13 de julho de 2015

A história de uma moça esquizofrênica

Às vezes, algo muito maior que nós mesmos nos toma, além da vontade, do desejo ou da ilusão do controle. Carl Jung chamaria isso de complexo, ou seja, um aglomerado de arquétipos (os tipos antigos ou mitológicos) que tem vida própria (em nosso inconsciente, às vezes invadindo a consciência) e nos adoece, mas também oferece pistas preciosas sobre o nosso verdadeiro caminho, o da alma. A questão é que essa "autonomia dos complexos" ou o avanço das doenças causa um sofrimento tremendo. Kerry tem 27 anos e sofre com a esquizofrenia.
O texto abaixo é um relato cruel não só de seu sofrimento pessoal e diário, mas de como essa situação é encarada pela sociedade e assistida pelo sistema de saúde de seu país, a Inglaterra. Uma realidade um tanto diferente, que diga-se de passagem, está bastante a frente da nossa. Ou seja, que grande drama a questão do sofrimento psíquico no Brasil. Imaginem! O que pouca gente sabe é que cerca de 23% da população sofre de distúrbios psíquicos como a depressão, crise de ansiedade, distúrbio bipolar e esquizofrenia, totalizando uma em cada quatro pessoas. Uau! Já pensou nisso!? Alguém da sua família poderia estar precisando de ajuda neste momento. O sofrimento da alma é o grande mal do século. Não podemos fingir que nada está acontecendo. É por isso que precisamos ler a respeito, nos informar e falar sobre o tema que ainda é um grande tabu. Dentro da perspectiva da psicologia arquetípica qualquer pessoa pode estar sujeita a esse golpe do destino. Com o suporte da astrologia...quem sabe se conhecendo melhor os arquétipos que nos habitam, se um Saturno ou um Plutão desafiadores, o diálogo com eles se torna mais fácil!? Conhecer sobre si mesmo deveria ser sempre o norte de qualquer busca.
Aline Maccari

Foi o "pior ataque" da Kerry. Ela tinha 27 anos e estava convencida de que tinha que atear fogo ao próprio corpo para salvar o mundo. Agora, estava brigando com a tampa de um galão de gasolina.
Kerry sabia que estava muito doente. Ela tinha transtorno esquizoafetivo desde os 19 anos. Sabia identificar os sinais de alerta. Já tinha tentado – sem sucesso – buscar ajuda no posto de saúde e em outros serviços. Certo dia, sentindo que não conseguiria garantir a própria segurança, ela foi a um pronto-socorro no meio da noite e implorou para ser internada. Disseram que não havia leitos disponíveis e prometeram que uma equipe psiquiátrica iria visitá-la pela manhã.
"Tive sorte. Não consegui abrir a tampa do galão de gasolina. Estava emperrada. Então é meio que por isso que ainda estou aqui. Três dias depois, fui internada. Essa história toda arranhou minha confiança no sistema. Pedi ajuda muitas vezes, mas ninguém fazia nada."
Hoje, aos 31 anos, Kerry já viu o melhor e o pior do serviço de saúde mental do sistema nacional de saúde do Reino Unido, o NHS. A frustração de ser abandonada em longas filas de espera. A revolta de ser jogada de um lado para o outro "feito batata quente" entre serviços. O trauma de, acometida de um transtorno mental, ficar presa na cela de uma delegacia – "uma das piores experiências da minha vida". Mas o apoio que recebeu de uma equipe especializada em psicose transformou sua vida. Ela só gostaria que não tivesse levado sete anos para conseguir isso.
"A equipe basicamente revolucionou a minha vida. Saí de um estado completamente inoperante e fiz mestrado, consegui um emprego e fiquei noiva", afirma. "Eles foram absolutamente incríveis. Mas antes de conseguir ser atendida por eles, era muito, muito difícil acessar os serviços de saúde."
Doenças mentais são comuns. Cerca de um em cada quatro de nós (23%) tem algum sofrimento ou transtorno mental, segundo a última pesquisa oficial. Esse número inclui uma variedade de situações, desde os 15% da população que têm depressão ou ansiedade aos 0,4% portadores de transtornos psicóticos como a esquizofrenia.
Mas experiências como a de Kelly não são incomuns. Existe atendimento de qualidade, mas é muito raro e encontrá-lo demora tempo.
É difícil passar uma semana sem que uma crise nos serviços de saúde mental ganhe as manchetes. Uma carência nacional de leitos significa que pessoas que estão passando por uma crise são transferidas por todo o país para receber tratamento hospitalar. Crianças aguardam tratamento por mais de dois anos e são admitidas em alas psiquiátricas de adultos. E o pior: no século 21, ainda vemos centenas de crianças e milhares de adultos com transtornos mentais sendo detidos pela polícia porque o NHS não consegue ou não aceita atendê-los.
Por que isso está acontecendo? Em parte, porque nosso sistema de saúde mental está sendo forçado a fazer mais com menos.
A demanda está crescendo. Os médicos receitaram, em média, mais de 1 milhão de antidepressivos por semana em 2013, o dobro do número de prescrições registradas dez anos antes. Em 2013 e 2014, 1,75 milhão de adultos receberam atendimento relacionado a doenças mentais graves, um aumento de 10% em relação ao período anterior. Mais de 53 mil internações compulsórias com base na Mental Health Act, a Lei de Saúde Mental britânica, foram feitas em 2013-14 – um recorde, 30% acima das taxas registradas dez anos antes. E o número de crianças admitidas em hospitais por automutilação é o maior dos últimos cinco anos.
O aumento na procura pode, em parte, refletir uma melhoria na forma como a saúde mental é tratada publicamente. O medo de buscar ajuda está sendo desconstruído, em função de ações como a campanha nacional contra a estigmatização Time to Change – Hora de Mudar, lançada em 2009. E a conscientização entre os profissionais também está melhorando. Como me disse um médico uma vez: "Por que estamos vendo mais casos de saúde mental? Em parte, porque estamos melhorando a forma de investigá-los."
No entanto, a crescente demanda por atendimento psiquiátrico também reflete o estresse na nossa sociedade. A austeridade abalou. Um estudo publicado no ano passado pelo British Journal of Psychiatry, a Revista Britânica de Psiquiatria, aponta que o índice de suicídios na Europa vinha caindo até 2007. Em 2009, um ano depois do colapso econômico, houve um aumento de 6,5% nos casos – nível que se manteve até 2011. E a uma pesquisa com assistentes sociais na área da saúde mental publicada no ano passado, três quartos dos entrevistados afirmaram que o corte nos benefícios sociais foi o maior desafio enfrentado por seus clientes.
Daisy Bogg, assistente social na saúde mental, afirma que os profundos cortes na habitação, assistência e previdência social aumentaram o estresse nas pessoas em um momento de vulnerabilidade. E o discurso do "trabalhador honesto versus vagabundo" adotado pelos políticos não ajuda.
Existe atendimento de qualidade, mas é muito raro e encontrá-lo demora tempo.
"Somos muito punitivos. Isso é alimentado por bordões sobre 'trabalhadores honestos' e essa coisa toda. Não é o único fator, mas alimenta a ideia geral de insatisfação social", afirma Bogg.
"Porque, na verdade, todos queremos fazer parte de algum lugar. Você pode superar muita coisa se tem um apoio. Mas se tudo está desmoronando, o que resta para você?"
Entender se esse cenário de financiamento está melhorando ou não é uma tarefa ainda mais complicada, pois o governo de coalizão descartou a única pesquisa nacional sobre o serviço de saúde mental. Mas uma investigação conduzida por mim apontou que a verba destinada a fundações de saúde mental financiadas pela NHS – instituições que oferecem a maior parte do tratamento hospitalar e especializado na área da saúde mental – caiu 8% durante o reinado do governo de coalizão. Outros dados indicaram que o gasto com saúde mental infantil caiu 6% entre 2010 e 2013.
A queda no financiamento tem impacto no atendimento em todos os níveis do sistema. Recentemente, procurei ajuda para tratar uma depressão. A minha é bem amena. O clínico geral receitou antidepressivos. Ele também recomendou que eu entrasse na fila para passar com terapeutas e fui informada que teria de enfrentar seis meses de espera. Isso foi melhor que para outras pessoas. Uma pesquisa publicada no ano passado e feita com 2 mil pacientes de psicoterapia aponta que um em cada 10 teve de esperar mais de um ano para conseguir atendimento. Uma em seis pessoas tentou tirar a própria vida enquanto esperava. Meu clínico geral também me encaminhou para um dermatologista por causa de um pequeno problema de pele. Consegui essa consulta em duas semanas.
Se você tem necessidades prolongadas ou mais sérias ligadas à saúde mental, provavelmente será colocado em contato com os serviços especializados em saúde mental. Isso varia de acordo com o que você precisa, mas inclui equipes de psicose, como a que Kelly acabou conseguindo, e equipes de atendimento psiquiátrico comunitário, em que assistentes sociais ou enfermeiros oferecem apoio contínuo e monitoram a sua situação. O problema é que, nos últimos cinco anos, esses serviços estão mais para lá do que pra cá em termos de verbas, enquanto os encaminhamentos subiram cerca de 20%. O resultado é que as equipes ficam sobrecarregadas. Os pacientes são atendidos com menos frequência. As filas de espera crescem. E as pessoas caem no limbo do sistema – consideradas doentes demais para a psicoterapia, saudáveis demais para o atendimento especializado.
Mas é no atendimento à crise que a pressão fica mais evidente. Pessoas que passam por situações terríveis e precisam de apoio emergencial são abandonadas rotineiramente. Quem liga para linhas de apoio à crise tem dificuldade de conseguir atendimento com equipes mal treinadas. Os leitos são escassos. Mais de 2 mil leitos psiquiátricos foram fechados e o número de pacientes que precisam deles só cresce, enquanto o atendimento na assistência social e na saúde, para prevenir e evitar que tenhamos que ir parar num hospital, foi desmantelado. Uma pesquisa da Faculdade Real de Psiquiatria com mais de 500 médicos descobriu que mais de um quarto (28%) já mandou um paciente "em estado crítico" para casa por não conseguir leito. E pior, pelo menos sete suicídios foram ligados a problemas no acesso aos leitos.
Os problemas são parecidos no serviço pediátrico. Nikki Mattocks tinha 14 anos quando começou a ouvir vozes. Ela passou para a automutilação e tentou suicídio diversas vezes. A jovem buscou ajuda na escola, no posto de saúde e no pronto-socorro, mas foi várias vezes mandada de volta para casa.
"Era horrível, porque precisa de muita coragem para dizer: 'Preciso de ajuda'", afirma Nikki. "Diziam que minha situação não era tão grave, mesmo quando eu estava me machucando, ou simplesmente falavam que as filas de espera eram muito longas. É ridículo, porque se você quebra o braço, não se espera que você fique meses na fila para ver se até lá você está bem." Nikki acaba de completar 18 anos.
Uma pesquisa da Faculdade Real de Psiquiatria com mais de 500 médicos descobriu que mais de um quarto (28%) já mandou um paciente "em estado crítico" para casa por não conseguir leito.
Ela recebeu ajuda depois de seis meses. Mas precisou de diversas internações hospitalares. Havia uma unidade para jovens a cinco minutos da casa de Nikki, mas estava sempre lotada. Ela então acabou em hospitais a até 50 km de distância. Assim, a visita por amigos e familiares ficou mais difícil.
"Quando se está doente, você precisa de pessoas que conhece e ama perto de você, para te lembrar porque você quer melhorar. Quando você é mandada para longe, não tem isso", afirma.
Mas será que os serviços alguma vez foram satisfatórios ou agora os problemas só estão recebendo mais atenção?
Perguntei a Bogg, que é assistente social no sistema de saúde mental há mais de 20 anos, como ela classifica a atual situação do sistema. "O serviço não foi sempre ótimo, mas está ficando cada vez mais difícil em termos do que podemos oferecer", afirma. "A oportunidade de construir relacionamentos basicamente não existe mais. Se eu já vi um momento de tanta pressão quanto agora? Não. Estamos vendo cortes no atendimento, nos leitos, nas equipes... em tudo."
Pergunte a quem trabalha ou utiliza os serviços por que se permitiu que o serviço fosse tão reduzido e a resposta será que a saúde mental há muito tempo é tratada como uma área inferior do NHS.
Para o professor Sir Simon Wessely, chefe da Faculdade Real de Psiquiatria, a desigualdade afeta de várias formas. Os hospitais gerais estão cheios de flores, mas as alas psiquiátricas muitas vezes não têm nada. Alguns médicos ainda tratam a psiquiatria como uma área menor da medicina e alguns transtornos mentais são desconsiderados, como se não fossem "doenças de verdade". Esse preconceito faz com que os serviços de saúde mental estejam no fim da lista de prioridades quando as comissões locais do NHS dividem sua fatia da verba de 95 bilhões de libras do sistema nacional de saúde.
"Os grupos de comissão clínica são cobrados a fazerem mais pela saúde mental, mas a resposta padrão é: 'Depois que resolvermos os problemas importantes – PS, câncer, maternidade – falamos de saúde mental'. Isso não é paridade", afirma Wessely.
O outro lado é que quem está no poder tem demonstrado, mais do que nunca, interesse na saúde mental. Mais pessoas com experiência no serviço também estão se manifestando para conscientizar sobre a saúde mental em geral e a necessidade de se melhorar radicalmente o sistema.
Paul Farmer, diretor executivo da instituição filantrópica Mind, aponta alguns momentos chave. Três anos atrás, parlamentares falaram abertamente sobre seus próprios problemas de saúde mental. Uma campanha nas redes sociais obrigou duas redes de supermercado, a Tesco e a Asda, a retirarem fantasias de "pacientes psiquiátricos" das prateleiras. No último ano, houve maior repercussão sobre os problemas do sistema na mídia. E agora, Farmer afirma, as pessoas estão exigindo cada vez mais melhorias nos serviços também.
"Esse é um dos motivos pelos quais a população e os políticos estão prestando mais atenção", avalia. "As pessoas estão muito mais confiantes de dizer que não é aceitável ter um sistema de saúde mental que não está de acordo com o século 21."
Farmer está liderando uma força-tarefa no NHS encarregada de melhorar o sistema. É o esforço mais recente adotado para corrigir a discrepância entre o sistema de saúde física e mental. Em 2012, o governo garantiu por lei um pacto segundo o qual o NHS valorizaria a saúde física e mental igualmente. Esse compromisso foi um marco, mas a verdadeira igualdade está longe de ser alcançada.
Os grupos de comissão clínica são cobrados a fazerem mais pela saúde mental, mas a resposta padrão é: 'Depois que resolvermos os problemas importantes – PS, câncer, maternidade – falamos de saúde mental'. Isso não é paridade. – Professor Sir Simon Wessely, Chefe da Faculdade Real de Psiquiatria
Também houve outros avanços. O governo apresentou as primeiras metas da história para as filas de espera psiquiátricas. Dentro de um ano, mais da metade das pessoas com psicose deve receber tratamento em até duas semanas. Pelo menos 75% da população que busca psicoterapia deve ser atendida em até seis semanas.
No orçamento final do governo, comprometeu-se empregar 1,25 bilhão de libras a mais em serviços psiquiátricos infantis nos próximos cinco anos. Também circulam propostas para proibir o uso de detenção policial em caso de adolescentes com problemas psiquiátricos. E a saúde mental pode ser, pela primeira vez, pauta do debate eleitoral, em vez de ficar renegada às letras miúdas dos manifestos.
Pergunte a Kerry e Nikki o que o próximo governo deve fazer e as duas dirão que é preciso haver assistência disponível para as pessoas muito mais cedo. Nikki também quer que a saúde mental seja uma disciplina ensinada nas escolas. Farmer, Wessely e Bogg afirmam que garantir maior financiamento para frear a precarização e ajudar os serviços a oferecerem melhor apoio e mais cedo deve ser uma prioridade imediata. "Um pouco de realidade" sobre os danos provocados pelos cortes nos serviços sociais e de previdência, que devem piorar ainda mais, já passou da hora, afirma Bogg.
Será que os políticos vão escutar? Quem sabe. Mas, como aponta Wessely, no ano passado, Nick Clegg dedicou um discurso à saúde mental. Ed Miliband foi o primeiro líder de um partido a visitar a Faculdade Real de Psiquiatria e Jeremy Hunt, o primeiro secretário de saúde a fazer o mesmo. David Cameron tem feito campanha sobre demência. E o plano quinquenal do NHS para os serviços de saúde na Inglaterra dá destaque para a saúde mental.
"Tudo isso é simbólico, mas tem um significado. Queremos ver isso se traduzindo em aumento real de recursos para os serviços, mas é um começo", afirma Wessely. "Em uma era em que é fácil não acreditar nos políticos, sejamos claros, a mudança de importância dada à saúde mental tem sido palpável."
Para quem depende do serviço público, boas políticas e retórica não são suficientes. Kerry diz que o discurso dos políticos deve ser fundamentado – não só com financiamento, mas também por aqueles no governo que são responsáveis pela situação dos serviços do NHS supervisionado por eles.
"No momento, só ouvimos: 'Não depende de nós, depende das decisões feitas nas comissões do NHS e outros grupos'", afirma. "Você pode falar as mil maravilhas que quiser sobre saúde mental, mas se não tiver dinheiro, muita coisa é só papo furado."

Fonte: http://www.vice.com/pt_br/read/por-dentro-da-crise-do-sistema-de-saude-mental-do-reino-unido

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