domingo, 15 de novembro de 2015

A SOMBRA NA CONTEMPORANEIDADE: O MESTRE BUDISTA, O DISCÍPULO E A RELAÇÃO COM A SOMBRA


FACULDADE DE CIÊNCIAS DA SAÚDE – FACIS
INSTITUTO JUNGUIANO DE ENSINO E PESQUISA – IJEP


A SOMBRA NA CONTEMPORANEIDADE:
O MESTRE BUDISTA, O DISCÍPULO E A RELAÇÃO COM A SOMBRA


Especialização em Psicologia Junguiana

BRASÍLIA
2015
----------------------------------------------------------------------------------------------------

INTRODUÇÃO

Sacerdotes, gurus e demais mestres espirituais sempre tiveram um papel inegável. Sua função social é intermediar o contato com o divino, ajudando o sujeito a entrar em contato com “deus” ou pelo menos com a divindade que existe dentro de cada um de nós. Eles facilitam esse processo clareando caminhos, trazendo lucidez, informação, método, disciplina, sentido, inspiração e senso de propósito. Na linguagem junguiana esse encontro com a chama divina, o numinoso, seria o encontro com o verdadeiro self ou o si-mesmo. Um papel delegado na pós modernidade também a outros profissionais tais como psicólogos, analistas e terapeutas. Entretanto estes não serão tratados nesta pesquisa, mas apenas os mestres do budismo da tradição tibetana.
A questão é que esses mestres, conhecidos por serem os “detentores do conhecimento oculto sagrado”, têm cometido vários equívocos, fato constatado pelo senso comum por meio de relatos e notícias na mídia, dia após dia. No entanto, seres humanos como quaisquer outros, não seria razoável que isso fosse minimamente compreensível? A questão é que muito comumente buscadores, discípulos e mesmo a sociedade de um modo geral, não encaram o tema desta forma. E por que isso acontece? Bem, uma das hipóteses é que devido a altas expectativas por parte dos discípulos essa é uma relação que já começa de forma desequilibrada. Geralmente o discípulo enxerga o mestre como alguém com habilidades especiais, que transita entre “a terra e o céu”, como quem tem poderes sobrenaturais, reforçados por tradições, regras, histórias, mitos e livros sagrados. Por causa dessa premissa básica de que o mestre ainda é aquele que faz a ponte entre os homens e os deuses, os discípulos se sentem muitas vezes inibidos, despreparados ou mesmo incapazes de avaliar o nível de preparo do mestre. Como se duvidar dele ou do processo espiritual fosse uma ousadia imperdoável. Outra mística que acompanha o trabalho espiritual é a expectativa de altíssimos resultados. Fator que pode isentar o discípulo de boa parte do árduo trabalho espiritual, eximindo-o dos esforços necessários a práticas complexas que podem ser bastante cansativas, no entanto, pessoais e intransferíveis.
Do ponto de vista do mestre também há algumas armadilhas possíveis como, por exemplo, quando essa “autoridade religiosa” se sente tentada a ocupar inapropriadamente uma posição de poder, identificando-se com uma persona onipresente, onisciente e onipotente, assumindo a postura de um verdadeiro deus, deixando-se tomar por um complexo poderoso. Essas e tantas outras possibilidades de relação entre mestre e discípulo podem gerar uma dinâmica de sabotagem que pode levar ambos a caminhos bem distantes do self.  O que seria um desvio do objetivo proposto, uma vez que muitas pessoas realmente necessitam de orientação psicoespiritual. Uma situação que pode chegar até a consequências desastrosas, nefastas, como a pedofilia, o abuso de drogas, a promiscuidade sexual, como veremos mais à frente.
O que motivou a pesquisa sobre o tema foi a frequência com que passamos a ter conhecimento, por meio de notícias, sobre relações mestre-discípulo que tiveram consequências negativas. Diante disso as perguntas mais importantes que poderíamos fazer acerca do tema poderiam ser: será que esse contato com a sombra, durante a dinâmica religiosa, é positivo ou negativo?  Até que ponto o trabalho espiritual desenvolvido entre mestre e discípulo pode levar à revelação ou à alienação? E dentro desta perspectiva, como distinguir o que seja revelação de alienação? Será o confronto com a sombra uma possibilidade de revelação? Afinal, se o lama budista, que é preparado geralmente desde muito cedo a prover orientação espiritual e tornar a si mesmo exemplo de conduta, como e porque em alguns momentos ele se perde no caminho produzindo consequências desastrosas para si e para os outros? Por que alguns mestres incorporam o tipo invencível, a persona de um salvador, e não reconhecem suas fraquezas? Segundo Jung, ninguém vive sem sombra, nem mesmo os mais altos sacerdotes. Aliás, é justamente por trabalhar na perspectiva da busca da luz que a sombra torna-se diretamente proporcional, tão grande quanto a luz. Quem mais trabalha em busca de iluminação mais sombra guarda em si.
Uma resposta plausível para essa difícil questão poderia estar na questão da persona. Uma forte identificação com a máscara de sacerdote ou de iluminado é algo muito difícil de ser questionado pelo discípulo. E é isso que tentaremos mostrar. Pois a identificação com uma persona de construção social tão poderosa dificulta o confronto do sujeito com a sombra, podendo gerar forte alienação.   Como o próprio Jung afirma, a sombra é algo constitutivo da alma humana, não há como negarmos um encontro com ela, principalmente quando a intenção do trabalho é espiritual.
Para falar sobre persona e sombra utilizaremos como base teórica a obra de Carl Gustav Jung. Pois que outra teoria senão a analítica, que trata exatamente desses conceitos, complementares, compreenderia melhor essa dicotomia entre complexos?  Além disso a filosofia budista e a psicologia profunda possuem muitos pontos de convergência quando tratamos de dualidade. Para isso utilizaremos os principais livros da obra de Jung, textos e livros que tratam do tema no âmbito do budismo e reportagens que mostram dramas reais que aconteceram entre discípulos e mestres do budismo tibetano.
A pesquisa se compõe de (...)
O objetivo desta pesquisa é trazer consciência para(...)

 * A tese completa pode ser requisitada por meio do e-mail alinemaccari@gmail.com 

Aline Maccari

Nenhum comentário :

Postar um comentário