terça-feira, 8 de setembro de 2015

Os bodes, a sombra e o menino Aylan



No céu os desafios não são diferentes. Os bodes também duelam. Plutão em Capricórnio faz sombra em Câncer, o signo da criança, da infância, da pureza. Urano em Áries faz sombra sobre a diplomacia de Libra e a possibilidade de acordos e entendimentos harmônicos. Não poderíamos estar vivendo momentos mais sombrios.







Quando todos nós achávamos que a foto emblemática do menino sírio afogado em praia turca seria o suficiente para tocar corações mundo a fora sobre a real problemática dos refugiados na Europa, eis que a bestialidade humana nos surpreende novamente. A super exposição da foto não foi o problema maior, em tempos onde a imagem já não nos surpreende se compartilhada por pelo menos 10% dos amigos da rede. A questão não foi a banalização da cena da morte de um bebê.
Foi algo pior. Em alguns dias, grupos das mais variadas vertentes de pensamento reutilizaram a imagem para propagar as opiniões mais nefastas. Textos começando por “Lágrimas de Crocodilo”, "O fantasma da islamização" ou “Europa capitalista afoga bebê refugiado” entregaram o menino Aylan como um “pacote delivery” não em busca de respostas, mas de bodes expiatórios. Aliás, os bodes é que são o problema. Cristãos contra muçulmanos, muçulmanos contra cristãos, esquerdistas contra yankes, europeus contra árabes e por aí vai. Das margens de cada lado dessa praia atiram-se pedras, um a culpar o outro. 

Carl Jung, pai da psicologia arquetípica nos fala sobre a sombra em nós. Tudo o que há de nefasto, negado, condenável que se possa imaginar. Geralmente, quando não vemos a sombra em nós mesmos, e somos todos inequivocamente feitos de luz e sombra, nós a projetamos no outro. Odiamos os pobres por que são pobres, os ricos por que são ricos, a religião do outro por que não é a nossa, o desenvolvimento do outro por que não foi o que conquistamos. E assim, elegemos bodes expiatórios, para nos livramos de nossos pecados mais íntimos, os da alma. A questão, como Jung fala é que a nomeação dos bodes tem duas facetas comportamentais. A primeira é autista. Odiar no outro o que odiamos secretamente em nós nos leva à paradisíaca praia do isolamento em si, e não havendo o outro, apenas nós mesmos nesse mundo, viver torna-se altamente confortável. E por isso, e também de acordo com Jung, agimos de forma auto erótica, onde o apontar o outro gera em nós uma enorme sensação de bem estar e prazer, de fuga dos nossos próprios problemas. 
Da última semana para cá nomeamos bodes entregando Aylan numa bandeija. E a imagem da criança, que deveria tocar-nos em nossa mais profunda humanidade, nos serve de escudo e lança. Ora, se Aylan não servir apenas para nos tocar, nada mais nos toca. Que grande fracasso nos tornamos.
Aline Maccari
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